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Entre o Sono e a Gagueira: o que diz a Ciência

Foto do escritor: vivianerimesfonosi
vivianerimesfonosi
há 1 minuto
7 min de leitura

Mês de Atenção à Gagueira: Informação, Cuidado e Acolhimento

Estamos iniciando outubro, o Mês de Atenção à Gagueira (MAG) — período em que acontecem diversas ações em institutos e associações mundo afora para divulgar a causa, combater o preconceito e trazer mais visibilidade, informação e acolhimento às pessoas que gaguejam.



Dentro deste mês especial, o DIAG (Dia Internacional de Atenção à Gagueira) é celebrado no dia 22 de outubro, marcando a data principal dessa mobilização global.

Para acompanhar toda a programação, novidades e conteúdos educativos durante este mês, divulgaremos várias ações aqui no nosso site e também nos perfis do Instagram: acesse e acompanhe @vivianermss e @clinicarimes.


O que é a gagueira?

A gagueira é um distúrbio neurobiológico do desenvolvimento que afeta a fluência, a temporalidade e o ritmo natural da fala. Trata-se de um quadro complexo e multidimensional no qual o cérebro processa a produção da linguagem de maneira singular, resultando em rupturas involuntárias no fluxo do discurso — como repetições de sons ou sílabas, prolongamentos e bloqueios.


De acordo com o CID-11, o diagnóstico é classificado sob o código 6A01.1 – Developmental Speech Fluency Disorder (Transtorno do Desenvolvimento da Fluência da Fala). Vale destacar que tanto o CID-11 quanto o DSM-5 trazem nomenclaturas técnicas e evitam o termo popular "gagueira" em suas definições oficiais; contudo, adotamos o termo neste texto para facilitar a compreensão e o acesso à informação por todo o público.

Vale destacar que a gagueira não é um problema emocional ou psicológico. Pesquisas neurocientíficas avançadas, utilizando tecnologias modernas de neuroimagem, permitiram aos cientistas mapear o cérebro em tempo real e identificar sutis diferenças estruturais e funcionais em áreas cerebrais de pessoas que gaguejam, quando comparadas a falantes fluentes. É verdade que fatores como estresse e ansiedade podem impactar a comunicação — especialmente se o ambiente não for acolhedor e a pessoa passar a se retrair, notar-se diferente, evitar situações de fala ou sentir frustração e insegurança. Contudo, essas reações emocionais e comportamentais são consequências das dificuldades de comunicação no dia a dia, e não a causa do distúrbio.


Resumo Introdutório: Entendendo a Gagueira

Não existem duas gagueiras iguais! A gagueira é individual, involuntária, imprevisível, intermitente e incontrolável! Ela pode ter origem em um fator genético herdado.

  • Início na infância: Costuma surgir principalmente entre os 2 e 5 anos de idade (fase de rápida expansão da linguagem), mas também pode aparecer mais tarde, por volta dos 7 ou 8 anos e até na adolescência.

  • Evolução: Algumas crianças apresentam gagueira que desaparece espontaneamente; contudo, em outros casos, as repetições e bloqueios aumentam gradativamente ou surgem de forma abrupta.

  • Gagueira em adultos: Diferente do distúrbio do neurodesenvolvimento infantil, a gagueira que surge subitamente na idade adulta exige investigação médica/neurológica.


Orientação e Atitudes

  • O que fazer: Ouça com atenção, dê espaço, demonstre respeito e aguarde o tempo da pessoa para concluir a fala.

  • O que EVITAR: Pedir para "respirar fundo", "pensar antes de falar", "acalmar-se". interromper ou completar as frases pela pessoa.  Não acreditar em receitas milagrosas!

  • Ambiente Escolar: Promova um ambiente acolhedor, inclusivo e livre de bullying.

  • Ação imediata: Ao notar os primeiros sinais, não espere "passar sozinho". Busque avaliação com fonoaudiólogo experiente.


Agora sim, vamos a nossa matéria sobre SONO e GAGUEIRA: quando o descanso também importa para a fluência

Dormir bem é fundamental para o funcionamento do cérebro. E, quando pensamos em fluência da fala, o sono merece uma atenção ainda maior.

Durante o sono, o cérebro permanece ativo e realiza processos importantes para a organização e consolidação das informações vivenciadas ao longo do dia. É nesse período que acontecem processos relacionados à aprendizagem, à memória e à recuperação do organismo.

Por isso, o sono não deve ser visto como um período de inatividade ou como “tempo perdido”. Ele é uma parte essencial da rotina e da saúde cerebral. (Sleep Foundation — How Sleep Works)

Essa importância se torna ainda mais evidente durante a infância, uma fase marcada por intensos processos de desenvolvimento e aprendizagem.

O sono ao longo da infância

A necessidade de sono se modifica ao longo da vida. Bebês, crianças, adolescentes e adultos apresentam necessidades diferentes e, durante a infância, o sono desempenha um papel especialmente importante no desenvolvimento.

Uma rotina de sono adequada contribui para que a criança tenha condições favoráveis para aprender, memorizar informações e lidar com as demandas do dia a dia. A FUNDASONO — Fundação Nacional do Sono aborda a importância do sono nas diferentes fases da infância e destaca sua relação com aspectos do desenvolvimento infantil.

Quando pensamos em uma criança que gagueja, portanto, observar o sono pode ser uma informação valiosa dentro de um olhar mais amplo e integrado para sua comunicação e seu desenvolvimento. (FUNDASONO — Sono x idade: sono nas diversas fases da infância)


O que os estudos mostram sobre sono e gagueira?

Pesquisas científicas vêm encontrando uma relação consistente entre gagueira e dificuldades relacionadas ao sono.

Um estudo realizado por Sandra Merlo e Patrick M. Briley, publicado em 2019 no Journal of Communication Disorders, analisou dados de uma grande amostra populacional dos Estados Unidos. Foram avaliados dados de 203 crianças que gaguejavam e 10.005 crianças que não gaguejavam.

Os resultados mostraram que as crianças que gaguejavam apresentavam maior ocorrência de insônia ou dificuldades para dormir, sonolência durante o dia e fadiga em comparação às crianças que não gaguejavam. (Merlo & Briley, 2019 — PubMed)

Em uma análise posterior dos dados, considerando a influência de condições como alergias, os pesquisadores encontraram uma associação ainda mais expressiva entre gagueira e dificuldades no sono: a probabilidade de insônia ou problemas para dormir chegou a ser aproximadamente sete vezes maior no grupo de crianças e adolescentes que gaguejavam, em comparação ao grupo sem gagueira e sem as condições de saúde analisadas. (Briley & Merlo, 2020 — ASHA)

Esses achados reforçam a importância de olharmos com atenção para o sono de crianças que gaguejam.


Sono e fluência da fala

A fluência da fala pode apresentar variações ao longo dos dias. A pessoa que gagueja frequentemente percebe diferenças em sua fala dependendo do momento, da situação comunicativa e de diferentes fatores do cotidiano.

Entre esses fatores, o descanso merece um olhar cuidadoso.

A experiência clínica traz relatos frequentes de oscilação ou piora da fluência após períodos de privação ou restrição do sono, tanto em crianças quanto em adultos que gaguejam.

Isso não significa que todas as pessoas que gaguejam terão necessariamente alterações na fala após uma noite mal dormida. A manifestação da gagueira é individual e multifatorial. Entretanto, quando existe a percepção recorrente de que a fluência oscila em períodos de maior cansaço ou sono insuficiente, essa informação torna-se extremamente relevante.


Por que o sono pode ser tão importante?

  • Consolidação do aprendizado: Enquanto dormimos, o cérebro passa por diferentes estágios indispensáveis para consolidar o aprendizado e organizar as experiências vivenciadas ao longo do dia.

  • Desenvolvimento contínuo: Uma rotina regular de descanso é vital para crianças que estão constantemente aprendendo, desenvolvendo linguagem e adquirindo novas habilidades sociais e comunicativas.

  • Suporte neurológico: O sono oferece as condições necessárias para que o cérebro desempenhe suas funções executivas e motoras de forma eficiente. (Sleep Foundation — How Sleep Works)


O que observar no dia a dia?

Para famílias e cuidadores, observar o sono da criança é uma forma simples de ampliar a compreensão sobre a sua saúde e o seu bem-estar geral.

Algumas perguntas ajudam a direcionar esse olhar:

  • A criança tem dificuldade para adormecer ou resiste à hora de ir para a cama?

  • Acorda muitas vezes durante a noite?

  • Dorme a quantidade de horas recomendada para sua faixa etária?

  • Acorda descansada e disposta?

  • Apresenta sonolência, irritabilidade ou cansaço excessivo durante o dia?

  • A família percebe alterações na fluência após noites de sono insuficiente?

  • Existe uma rotina de sono previsível e regular?

Observar esses aspectos não significa buscar no sono a causa única da gagueira. Significa reconhecer que sono, desenvolvimento cerebral e comunicação fazem parte de um mesmo sistema integrado e não devem ser analisados de forma isolada.

Para entender melhor sobre a rotina ideal de descanso nas fases do crescimento, acesse o material da (FUNDASONO — Sono x idade: sono nas diversas fases da infância).


Quando é importante buscar orientação?

Dificuldades ocasionais para dormir podem acontecer a qualquer momento. Porém, quando surgirem ou forem identificadas alterações frequentes, insônia ou distúrbios persistentes no sono, é fundamental consultar um médico (como um pediatra ou médico especialista em sono) para uma avaliação detalhada e adequada das causas.

Da mesma forma, ao perceber uma relação frequente entre o cansaço/sono insuficiente e mudanças na fluência da fala, compartilhe essa observação com o fonoaudiólogo que acompanha a criança ou o adulto. O objetivo é sempre compreender de forma integral os fatores que influenciam a experiência comunicativa de cada indivíduo.


Sono também é cuidado

Falar sobre gagueira também é perguntar sobre como está a qualidade do descanso. Cuidar do sono é atender a uma necessidade biológica primária e proporcionar ao cérebro as condições ideais para a aprendizagem, a memória e a regulação emocional e motora.

Dormir bem não é tempo perdido. É tempo de restauração, organização e preparação para se comunicar melhor com o mundo.


A CLÍNICA RIMES conta com profissionais especializados e preparados que estão prontos para lhe atender.


Lembre-se: a sua voz importa e o seu tempo de falar é só seu. Estamos aqui para caminhar ao seu lado com respeito, acolhimento e o cuidado que você merece.


Fga Viviane Rimes

CRFa 1-9837

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Fontes bibliográficas

  • MERLO, S.; BRILEY, P. M. Sleep problems in children who stutter: Evidence from population data. Journal of Communication Disorders, v. 82, 105935, 2019. DOI: 10.1016/j.jcomdis.2019.105935.

  • BRILEY, P. M.; MERLO, S. Presence of Allergies and Their Impact on Sleep in Children Who Stutter. Perspectives of the ASHA Special Interest Groups, v. 5, n. 6, p. 1454–1466, 2020. DOI: 10.1044/2020_PERSP-20-00095.

  • SLEEP FOUNDATION. How Sleep Works.

  • FUNDASONO — Fundação Nacional do Sono. Sono x idade: sono nas diversas fases da infância.





 
 
 

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Viviane Rimes - Fonoaudióloga

©2022 por Viviane Rimes - Fonoaudióloga.

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